quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sobre o ensino de Filosofia.

A filosofia não é uma ciência, portanto sequer pode se aproximar de um conhecimento exato. Os céticos diriam que sequer teríamos conhecimento. A filosofia é prática de pensamento, é estímulo ao mesmo e portanto, tratando a dificuldade de desenvolver o conceito da própria disciplina, a avaliação de conhecimento da mesma seria igualmente difícil. Os filósofos antigos do período clássico grego diriam que a filosofia é um processo para a vida inteira, portanto, como avaliar o aprendizado filosófico em um bimestre, como a maioria das escolas fazem? Principalmente porque o método usado é o mesmo que usa-se normalmente nas ciências exatas como: questões de marcar "x", "complete as frases" e "o que é...". Para definir alguns conceitos na filosofia, os autores, que dispõem de uma experiência longa de vida (o que os filósofos acham o essencial para se fazer filosofia), discorrem em livros e livros, mesmo sem saber onde e como chegarem a uma verdade absoluta, se ela existe.
Primeiramente entender que não existe uma verdade absoluta, posteriormente compreender a complexidade que a filosofia carrega em si, é um pressuposto para se pensar em avaliação em filosofia. Em segundo lugar, o processo pode não durar o período que é esperado pelo avaliador, no entanto, pode não ser algo tão proveitoso em nível de regularidade para tradição escolar, com datas e normas pré-estabelecidas, nem para o mercado. Para tanto, a filosofia não tem utilidade, ou seja, ela é subestimada pelo seu valor de mercado. Mesmo tendo o pensamento como foco, não se releva o mesmo como uma atividade necessária para a continuidade da raça humana, mas sim para a produção de coisas "úteis" ao conforto de uns. Em terceiro lugar, o ambiente escolar pode não ser simplesmente o que se pode considerar suficiente para a prática do pensamento, ou estímulo do mesmo. O trabalho deve ser continuado pelos pais, que em sua grande maioria não estão preocupados com a evolução intelectual do educando, mas simplesmente com os resultados que demonstra mediante ao estabelecimento de normas pela sociedade (para ingressar em grandes instituições e até em empresas para fornecer força de trabalho), isto é, com a utilidade do que é apreendido em filosofia.
O absurdo está em perceber que o pensamento não é levado em conta quando justamente não tem utilidade ligada a fins lucrativos nem fins concretos como as ciências exatas e todos seus cálculos proporcionam. Logo, o cidadão formado por essa tradição será um mero reprodutor deste esquema, que fará exatamente a sociedade pensar em modelos cada vez mais industrializados de padrões de vida, se retirando assim da importante missão de preservar. Por mais que este caminho para luz atordoe um pouco e dê um pouco de trabalho pelos espinhos dos quais terá que retirar da sola do pé, é necessário para a humanização do processo ensino/aprendizagem, considerando que no meio desses termos, onde localizamos a barra que separa os conceitos, se encontra o conceito de avaliação.
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sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Equidade e a Proporção Segundo Aristóteles.

No livro V da obra "Ética a Nicômaco", Aristóteles trata o problema da justiça, de modo que reconhece que as leis existem para a preservação da felicidade, pois as leis buscam alcançar um denominador comum, isto é, favorecer a todos, ou àqueles que detêm o poder político. Para Aristóteles, existe uma tensão que limita o homem em agir sempre pensando não só em si mesmo, mas naquele em que há de conviver socialmente. E esta busca que faz o homem sempre se inclinar ao seu próprio interesse é o que faz a prática da justiça ser uma tarefa extremamente difícil, o que neste caso também implica em fazer um bem ao próximo, quer seja um amigo, um parente, ou um estranho. De certo é mais fácil fazer bem a um amigo, a um parente ou qualquer próximo, porém torna-se uma tarefa mais árdua fazer bem, ou agir com justiça com aquele que não é próximo, ou simplesmente com aquele que é injusto e que age por impulsos sempre se encontrando encolerizado.
Ao falar de um possível homem justo, obviamente Aristóteles se aproxima em descrever o homem injusto, pois para a percepção e identificação do primeiro ele usa o conseguinte para sua análise comparativa. Contudo, nessa busca pela justiça, isto é, pelo homem justo, ele considera as leis um caminho que busca a virtuosidade no agir humano. É o guia que dirige o homem à prática da justiça.
Aristóteles, ao separar o homem justo do homem injusto ele classifica algumas das práticas dos mesmos, e esta prática, para o homem justo, compete na equidade, na justa medida entre o que chama de excesso e falta, o que seria a prática do homem injusto. No entanto, pensando em uma divisão justa, se estabelecemos que um pai tem dezoito balas para dar aos seus três filhos, o mais justo seria dar seis balas para cada um deles; o modo injusto seria ultrapassar para mais ou para menos essa quantidade para um ou outro; nesta ocasião o que se torna justo é o que validamos como proporcional. Mas se pensarmos na questão do mérito, veremos que essa divisão se tornará um tanto quanto mais complexa que o que foi dito anteriormente. Se o filho 1 é mais obediente, tira notas melhores na escola, realiza todas suas tarefas sem reclamar, e em comparação com o filho 2, que sempre burla as tarefas, vai mal na escola e não obedece o pai, e o filho 3, que somente é um bom aluno na escola, mas também não realiza as tarefas e nem obedece o pai, na distribuição por méritos, o filho 1 justamente teria mais balas que o filho 2 e 3. Considerando que mesmo na distinção entre o filho 2 e 3 haveria uma nova distribuição em proporcionalidade, pois o filho 3 tem mais méritos que o filho 2. Portanto, neste caso, para Aristóteles, o justo é o proporcional, e o injusto é o que viola esta proporção.
O exemplo anterior nos faz pensar que a justiça pode ter vários significados em um contexto, e então a investigação acerca da justiça pode nos levar a perguntar que tipo de significados que poderemos dar a justiça, ou melhor, o que poderemos considerar um ato injusto, ou em quais tipos de significados poderemos considerar que uma pessoa é de fato injusta. Se de fato o justo é aquele que age conforme as leis, esta que é algo geral e se relaciona com todos, o injusto logicamente é aquele que confronta as leis, agindo desconforme à ela. Por outro lado, aquele que busca sempre mais em proporções do que o outro, aquele que busca gananciosamente e insaciavelmente ter mais que o outro, é aquele que age injustamente. A honestidade se torna então, não obstante, uma querela da justiça, pois aquele que busca a honestidade também estabelece como princípio a igualdade.
Mais relativa ainda é a questão da proporção destacada por Aristóteles. Embora possamos pensar em atos injustos relativizando o contexto em que o indivíduo está inserido, a proporcionalidade também se diferencia de caso para caso.
Se pensarmos em uma agressão e em uma punição para essa mesma agressão, não poderemos pensar na retribuição da pena para tal violação das leis no sentido proporcional, isto é, em retribuir ao agressor uma outra agressão para que seja punido em proporcionalidade ao ato injusto que cometera. Neste caso a punição não parte de uma proporção distribuída exatamente igual, mas em uma proporção aproximada à violação cometida.
Da mesma forma, em relação ao trabalho, jamais pode-ser se encaixar perfeitamente à luz da equidade o que um sapateiro produz e o que um ferreiro produz em um dia. Para que possa ser justa a troca, neste caso se aproxima o tempo que usou-se para produzir o sapato e o tempo que usou-se para produzir a espada, assim portanto igualando à proporção, o que os trabalhos produziram, procurando obter-se em nível de troca o que for mais justo para ambas as partes. Para este tipo de medição usa-se o dinheiro, o que facilita neste momento de troca. Para Aristóteles este é o símbolo da necessidade do homem em viver em sociedade, pois um necessita do outro, e por esse motivo realizam a troca. O dinheiro é o que troca estes materiais equiparáveis, e se não houvesse essa equiparação não haveria troca, ou pelo menos não proporcional, isto é, justa, em ordem de igualdade.
As ações sempre estão destinadas, na ética aristotélica, em função da preservação da vida social, ou seja, da convivência. E são estas regras/leis que vão garantir a harmonia de uma sociedade tal qual se pretende construir, portanto, para aqueles que se desviam do agir conforme as leis existe a punição, garantindo que permaneça prevista a ordem harmoniosa da convivência social.
Aristóteles deixa claro no capítulo 6 que o que procura não é o que é justo incondicionalmente, mas também a justiça política. Deste modo, voltamos ao problema de diferenciar o justo do injusto. Pois só há leis onde se discrimina o justo do injusto, de forma que não haveria sentido leis numa cidade onde só tivéssemos homens justos. Todavia, neste caso, não haveria necessidade alguma de leis regulamentando a conduta do homem supondo que os mesmos venham agir de forma injusta,isto porque esta conduta não se faz presente no agir deste homem justo.
O princípio racional deve estar à frente de qualquer manifestação humana, visto que sem esse pré-suposto o homem agiria em função de seu próprio interesse, violando toda ordem harmoniosa que faz gestão da sociedade. A irracionalidade que direciona o homem a encolerizar-se, é a mesma que destrói a sociabilidade do homem em relação à cidade. A justiça não representa só um estado de felicidade para o cidadão, mas também para toda a pólis, da mesma forma se trata do geral para o específico, isto é, a justiça aplicada em geral na pólis fazendo-a uma cidade feliz faz com que consequentemente os cidadãos se encontrem em estado de felicidade.
Do mesmo modo que Aristóteles coloca as ações voluntárias visto às relações contratuais de troca entre os homens, nas quais fizemos um breve comentário anteriormente, também disserta sobre as ações involuntárias dentro de uma sociedade, isto é, as ações nocivas como o roubo, o furto, o assassinato, o adultério etc., o que torna estranho em nosso raciocínio em pensar em relações contratuais violentas, que deterioram a liberdade e ofuscam a boa convivência na sociedade.
Para destacar o que de melhor há de se convir enquanto a postura do homem em relação às suas atitudes, Aristóteles elege o meio-termo como o que proporciona o maior equilíbrio e direciona as ações humanas sempre ao uso da razão, esta que guia o homem de forma a estabelecer-se como método para o equilíbrio e a justiça em uma cidade feliz.
Diante da justiça política, vê-se na "Ética a Nicômaco" duas partes distintas, essas das quais a natural pressupõe algo que tenha o mesmo significado em peso onde quer que seja, destacando certa imutabilidade dentre a compreensão racional de certo ou errado, de bem ou mal. Deste modo imagina-se aqui que há leis morais ligados à justiça política que são universais, e isso se torna problemático quando diz que não há diferença quando o homem pensa deste ou daquele modo, mas é algo que precede este julgamento.
Por outro lado encontra-se a parte legal, que compreende que concepções são convencionalmente estipuladas para este ou aquele tipo de ação, decidindo seu valor moral e ético dentro da justiça política. O caráter convencional para o estabelecimento do padrão de justiça é o que determina, para Aristóteles, o que é justo, ou seja, não por natureza, mas por decisão humana.
Ainda buscando a compreensão do caráter equitativo nas relações humanas, Aristóteles fala sobre a justiça compensatória nas relações jurídicas involuntárias tal que desenvolve sua teoria da proporcionalidade. Nos casos de trocas comerciais busca-se estabelecer sempre o equilíbrio entre ambas as partes, porém, numa perspectiva de exatidão não há como prescrever de maneira igualitária o que se entende como troca, mas na verdade busca-se sempre estabelecer a proporcionalidade daquilo que se entende como justo. O que demonstra mais uma vez que a igualdade é relativa, pois pode se estabelecer o mais igual possível sem ser a igualdade em sua suma essência (algo que seria impossível). Assim como numa transação involuntária num caso de assassinato, em que o juiz não tem como aplicar em termos de igualdade o que diretamente se tem como compensação, mas sim algo compensatório.
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segunda-feira, 13 de junho de 2011

O filme A ONDA (Die Welle) e a Perspectiva Construtivista no Âmbito Educacional

Podemos perceber diante do remake do filme alemão Die Welle (A Onda), um princípio que nos remete à teoria maquiavélica de que os fins justificam os meios. O fim último pelo qual o professor destacado no filme, que leciona sobre o regime autocrático, seria que os alunos matriculados no seu curso percebessem na prática como ainda seria possível um regime autoritário e fascista na Alemanha contemporânea. Não obstante, todos os elementos usados na didática são particularmente estruturados com bases construtivistas. Nesta relação os alunos participam construindo o pensamento de uma forma harmoniosa, convivendo com as soluções e, principalmente, com os problemas vivenciados nas situações das quais a teoria estudada em sala de aula fazia referência.
A proposta do filme é mostrar como uma indução comportamental pode interferir na vida do educando efetivamente. Neste nosso caso, no primeiro momento, a proposta completamente inovadora, diferente da tradicional postura do professor que lecionava sobre o anarquismo, se desenvolveu com muito sucesso dentre os educandos que participavam do curso. Entretanto, o fundo psicológico que foi construído sob a responsabilidade do professor gestor do programa fugiu de suas rédeas, o que foi problemático se visarmos as ações comportamentais que os alunos passaram a desenvolver após o envolvimento prático com a proposta estudada, e acima de tudo vivenciada.
No entanto, podemos concluir que a proposta construtivista é envolvente e gera resultados completamente significantes, diferente daquele modo de ensino do qual o aluno jamais participara efetivamente em sua realidade vivida, e outrora também jamais poderá participar. Por outro lado, o cuidado que o professor tem que tomar mediante ao que vai propor como construção de conhecimento aos educandos é essencial, visto a forte influência que sua gestão e orientação exerce em relação aos mesmos e a envolvência que esta proposta gera na realidade prática dos alunos.

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sobre valer a pena praticar a JUSTIÇA - A Fala de Sócrates.


Após o belo discurso sofista acerca da desvantagem em praticar a justiça, considerando que cometer a injustiça e aparentar ser justo é mais vantajoso, buscando sempre a auto-preservação, Sócrates, admirando tal discurso considera-se, à princípio, incapaz de defender a justiça. Porém, sente-se incomodado em presenciar argumentos tão nocivos à sua concepção de justiça e não defender o que julga ser a mais justa harmonia em práticas da pólis.
            Não obstante, Sócrates inicia sua argumentação ampliando a análise de um indivíduo para a análise da pólis, composta de vários indivíduos. Assim, compreendendo a formação de uma cidade,  poderia perceber a natureza da justiça, assim como a natureza da injustiça.
            Primeiramente Sócrates desfaz o pensamento sofista da auto-suficiência, destacando o homem como parte de um todo que necessita de estar harmonizado com a pólis. Sendo assim, a cada um seria importante que exercesse somente a atividade que tem, por excelência, uma habilidade em destaque, pois seria o melhor (e feliz principalmente) naquilo que faz, cada qual conforme sua natureza.
            Após constatar o tamanho da cidade e a necessidade de importar certas coisas de outras cidades, havendo assim relações com as mesmas, Sócrates acredita na possibilidade de haver guerra pela hegemonia, portanto a necessidades de homens, os chamados guardiões que salvaguardariam a pólis dos males que viriam para sua destruição. Entendendo a impossibilidade de uma só pessoa executar com perfeição várias artes, considerando a guerra como uma arte, era necessário um artista preparado para esta função. Alguém que doasse toda sua vida integralmente à essa prática, sem sentir-se mal, pelo contrário, a exercesse com o maior dos prazeres. Porém, para que houvesse a perfeição na prática desta arte, o guardião da cidade, com toda sua importância, deveria ter um instinto de filósofo, além de uma educação apropriada para que tivesse sua conduta inclinada para seu exercício na cidade. Desde a infância a alma deveria ser moldada para exercer a guarda da pólis, por isso as músicas, as fábulas e qualquer tipo de poesia deveria ser selecionada para que não transmitisse aos jovens, tidos como imaturos e incapazes de diferenciar o que pode ou não ser apreendido de tal expressão artística, a parte ruim das mesmas.
            Sem a atuação dos poetas, induzindo mentiras e trazendo formas dos deuses compreendendo-os de uma maneira deturpada, comparando-os com os erros humanos em uma completa desconstrução do que deveria ser apresentado como ideal para a educação destes homens. Se por outro lado, uma educação reta e padronizada, sem estímulos que tirem o guardião da sanidade, pode-se dizer que este homem teria a honestidade como base de sua atuação na pólis, pois dele dependeria uma grande e importante missão de guardar a cidade.
            Excluindo a conduta dos poetas em descrever, nos contos e fábulas, a conduta de deuses que se demonstram perversos e como praticantes de arbitrariedades que seriam desprezíveis na pólis, ou seja, heróis que não são melhores que os homens, espera-se ter homens honestos. Diferentemente do que os poetas fazem parecer os homens, ou seja, homens justos infelizes e injustos felizes, dando a entender que a injustiça é mais vantajosa.
            Estes homens devem ser educados por pessoas mais velhas, estas que conheceram bem tarde a injustiça, tendo a notado sem fazê-la parte de si, tendo observado-a como coisa alheia aos outros e, logo, a percebendo pelo saber, e não pela experiência própria, compreendesse seu poder devastador.
            Contudo, considerando os moldes de uma cidade feliz, todos os seus habitantes deveriam ser justos, compreendendo que todos exerceriam naturalmente suas funções, a raça de ouro, a de prata e a de bronze, e todas essas partes da cidade estariam sendo educadas, considerando a mobilidade das raças. Pois se toda a sociedade estaria sendo educada e nesta educação houvesse a percepção de cada habilidade pelos educadores, todos eles teriam a honestidade como um ponto positivo, estimulado em sua excelência suas boas práticas que os tornariam ainda melhor que seus antecessores.
            Considerando estes homens de bem, que perpassam por todas as classes da pólis, homens que não precisam de preceitos e que seguem naturalmente as leis, a cidade estaria em completa harmonia, moldada pela educação pautada na justiça. Caso contrário os homens perderiam muito tempo para corrigir os males causados por uma má educação, sem certeza de êxito.
            Uma cidade que é fundada de acordo com a natureza é completamente ponderada e sábia, em todas as partes. De certo modo é possível migrar para uma outra atividade, porém, sem objetivar honrarias nem riquezas, mas sim por pretender desempenhar uma outra função que lhe é nata.
            A importância de desempenhar cada um sua função é o que faz a cidade justa, ponderada, temperada, sábia e corajosa. Cada indivíduo justo coopera para uma cidade justa, ou seja, um todo justo, fluindo harmoniosamente sem ter desvios. Ao passo que a justiça gera a concórdia e a amizade, a injustiça produz nuns e noutros revoltas, os ódios e as contendas, sendo a primeira primordial para uma cidade justa e boa, e a segunda o contrário disso. A ignorância dos injustos o faz criar discórdia em si mesmo, e por outro lado os justos  são melhores e mais capazes de atuar, são mais felizes. Jamais pode-se imaginar uma cidade com injustos, pois não poupariam uns aos outros, trapasseando e criando o caos. A justiça é uma virtude da alma, e a injustiça um defeito, contudo o molde da alma, o qual nos referimos anteriormente seria primordial para o viver bem do homem em harmonia com a pólis.

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

“O JESUS HISTÓRICO EM SUA ORIGEM JUDAICA”

                                                     Por Tav Rosh Benyakóv

Discorrer sobre Jesus pode ser demasiado delicado, complexo e contraditório. Pois não é possível determinar que ele tenha sido um ser real, encarnado, com vida social que possa ser reconstituída de forma precisa e histórica. Por outro lado, tudo o que dizem sobre ele, bem como tudo o que tem sido produzido e pregado sob argumento de sua possível existência, influenciou radicalmente a sociedade por dois mil anos. Sendo assim, o Jesus histórico só pode ser estudado e avaliado por meio dos acontecimentos que evocam seu nome e seus valores, capazes de gerar concretas reações no cenário social. Ou seja, entendo que o Jesus histórico é produto do imaginário coletivo - plural e controvertido – ora construído, materializado e manipulado no decorrer da história.
Mas que Jesus histórico será discutido: O da expectativa messiânica judaica, oriunda do cativeiro babilônico? O essênio? O Mestre da Justiça? O rei? O sacerdote?  O eremita ascético? O rabino fariseu? O herege, profano e reacionário que foi condenado à morte por justiça? O que se casou com Maria? O que teve relações sexuais com João? Aquele narrado no cânon cristão ou nos apócrifos? O helenístico? O gnóstico? Ou aquele deificado e forjado para ser dominador romano? Mas romano ortodoxo ou católico? O mesmo Jesus que legitimou a inquisição universal e o pogrom russo? Ou o Jesus também anti-semita, reformado, e luterano, que serviu de base ao protestantismo alemão e nazista? Ou o Jesus que motivou o selvagem capitalismo europeu e americano? Mas deixaria de ser histórico o Jesus mítico, e místico, produzido pela coerção social das tradições imperialistas cristãs? E o Jesus cardecista e esotérico? E o Jesus arquetípico de Jung? Ou o Jesus da experiência pessoal, ora produto da esquizofrenia e demais patologias psíquicas, tal como a fraude do inconsciente? Ou o Jesus mercenário, manipulador, curandeiro, charlatanista, que vende a salvação nos movimentos neopentecostais contemporâneos? Ou, quem sabe, o Jesus imaginativo, lendário, fabuloso e literário que inspira adesões político-partidárias ainda hoje? Sob que perspectiva é possível avaliar este personagem-curinga, que respalda o bem e o mal, a ordem e a revolução, a paz e a guerra, a dominação e a liberdade, a fé e a razão, variando de acordo com a época, grupo social e interesse político de quem o defende? Quem é este ídolo plástico, sempre remodelado pelas mãos dos artífices-ideológicos que trabalham para a crescente legitimação e manutenção do poder? Quem é este ídolo de barro que é vivificado, adorado e imortalizado pela alienante crendice das massas?
Ao focar a atenção somente no período contextual do segundo Templo de Jerusalém, por volta de 515 a.e.c até 70 e.c, percebe-se que a fé judaica estava dividida em diversos segmentos: samaritanos, saduceus, escribas, fariseus, essênios, zelotas, macabeus, herodianos, sicários, caraítas... e, por fim, cristãos. Nota-se, a partir desta introdução, que o judaísmo nunca foi uma religião homogênea, detentora de um só dogma. Ao contrário, sempre foi plural e, às vezes, os judeus discordavam quase plenamente em suas crenças à medida que seguiam de uma facção à outra. Em função disto, segundo o historiador Flávio Josefo, em meados de 150 a.e.c, um grupo de ascéticos separatistas, denominado essênio, migrou ao deserto por encontrar-se insatisfeito com a religiosidade, política e helenismo predominantes em Israel. Os essênios dividiam-se em grupos de 12, vestiam-se de branco, usavam barbas, eram celibatários, acreditavam em cura pela imposição de mãos, aboliam a propriedade privada, eram vegetarianos, realizavam batismos, praticavam o ritual da ceia com vinho e pão, expulsavam demônios, acreditavam no Bem e no Mal, em filhos da Luz e das Trevas, não aceitavam sacrifícios de animais, desprezavam o Templo, acreditavam na vinda de um messias libertador, valorizavam as escrituras sagradas e dedicavam-se a estudá-las – sendo estas também as principais características de Jesus e seus discípulos, conforme narrativa dos Evangelhos.  Assim, possivelmente, os essênios teriam lançado as principais bases teológicas do cristianismo primitivo – e ainda judaico. E mais que isto, pois, talvez, tendo sido o Mestre da Justiça um tipo de messias judeu - dentre tantos outros que já existiram - fora progressivamente mitificado pelos primeiros gnósticos-cristãos ao ponto de, séculos mais tarde, também ser usurpado e deificado pelo Império Romano. 
Independente de quem, exatamente, tenha sido o Jesus histórico, é notório que ele foi filho do judaísmo e representava exclusivamente as expectativas sociais, políticas, religiosas e messiânicas de determinados segmentos israelitas. Inclusive os Evangelhos (escritos entre 70 e 90 da e.c) testemunham que os pais de Jesus e seus discípulos eram judeus, da linhagem de David; ele freqüentava as sinagogas, o Templo, e colocava-se a reinterpretar livremente a Torá e as Escrituras, tal como um rabino fariseu; seus ouvintes eram basicamente israelitas; e mesmo Paulo, que foi o maior propagador de Jesus, era fariseu convicto, criado aos pés de Gamaliel, detendo profundo conhecimento da Lei judaica; e, segundo os Atos dos Apóstolos - apesar do proselitismo e da contínua conversão de gentios ao judaísmo - o tema do possível messianismo de Jesus era sempre discutido entre judeus e dentro das sinagogas. Mas o conceito judeu de messias era simplesmente o de "libertador e restaurador político”. Jesus nunca foi considerado "deus-encarnado" na religião judaica, nem parte de uma trindade divina – isto era considerado blasfêmia, heresia, profanação e idolatria, sendo absurdamente incompatível com a cultura deles. Consequentemente, a grande maioria de judeus repudiou completamente a Teologia Paulina, causando uma cisão definitiva entre judeus e cristãos. E o Império Romano perseguia tanto a um quanto ao outro, torturando-os, queimando-os, e matando-os durante os quatro primeiros séculos. Somente em 313 da e.c. que Constantino se converteu ao cristianismo primitivo e concedeu liberdade de culto a Roma, mandando construir a primeira igreja com seu próprio dinheiro. Em 325 e.c., no Concílio de Nicéia, Constantino tentou unificar o pensamento cristão e eleger alguns dogmas - tal como a doutrina ariana, que defendia a divinização de Jesus.  Em 330 e.c. a capital do império foi transferida para Constantinopla; e apenas em 380 da e.c.,Teodósio tornou o cristianismo uma religião estatal. A partir deste momento concretiza-se a maior usurpação religiosa da história: o carpinteiro judeu é transformado num deus romano, a Tanach é substituída pelo Novo Testamento, as sinagogas cedem lugar às igrejas, as raízes judaicas são extirpadas e recebem uma maquiagem helenizada, o povo judeu é desapropriado de suas riquezas e amplamente exterminado sob o trágico argumento de terem “assassinado o Filho de Deus” - e o judaísmo é transformado em cristianismo, dando início à tenebrosa Idade das Trevas.
Sob esta brevíssima e superficial perspectiva, já é possível perceber que o Jesus pregado pela igreja – seja ela Ortodoxa, Católica, Protestante ou Neoprotestante - tornou-se mais que uma mitificação progressiva e naturalmente mutante, mas uma fraude histórica a serviço do poder. Trata-se de um Jesus roubado, deturpado, forjado, recriado, folheado a ouro – desde a Patrística, Escolástica, Reforma – para ser forçosamente comprado por parcelas incultas da população. Todavia, esta conclusão não encerra a discussão sobre Jesus e aponta para infinitas outras problematizações históricas, culturais, religiosas, sociais, políticas, psicológicas e ontológicas - algumas das quais sugeridas no segundo parágrafo deste artigo - que necessitam de maior atenção, pesquisa e aprofundamento filosófico. 
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