sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Nietzsche e o Cristianismo: a religião dos malogrados.

Para Nietzsche a interpretação está ligada aos modos diferentes de ser. Esses modos diferentes de ser se manifestam nos tipos vitais que cada um desempenha de acordo com sua Vontade Poder. Nesse contexto, o modo de ser de cada força é a Vontade Poder e as várias formas de poder são iguais a um singular. A V.P. experimenta o que é bom, ela se evidencia quando há acréscimo de poder. Por outro lado, a parte má, para Nietzsche aparece com o declínio do ser, este que seremos mais específicos mais adiante.
Doravante entenderemos a realidade como um processo de corporação (isso é finito, não deixemos perder de vista), porém existem processos que não conseguem ser incorporados numa realidade vivida. Em um casamento, por exemplo. Dentro do possível, cada um se manifesta de maneira a contribuir com a união, em controvérsia a separação agrega um elemento novo que não consegue ser incorporado. O dilatar do eu segue como o fogo de Heráclito, que tudo consome e modifica acrescentando algo e excluindo ou não outro algo. A não aceitação de elementos novos provoca a cisão do casamento, e esta cisão é definitiva quando não se aceita esta dilatação do eu para um preenchimento produtivo do ser.
Segundo Shoppenhauer, no que nós realizamos um desejo temos inúmeras frustrações que são formadas na não realização de outros desejos, estes são formados no momento exato em que não os realiza ao realizar um desejo selecionado. O prazer de realizar um desejo é bem menor que a frustração de não realizar os inúmeros outros desejos contidos no nosso ser. Para Nietzsche, a experiência da beleza desfaz a tensão pelo desejo, assim nos tirando um universo de frustrações proposto pela idéia shoppenhauriana.
Dentro das críticas que Nietzsche faz no “Anticristo”, o acréscimo de poder experimenta o que é bom, quando o declínio experimenta o mau, lá onde há malogrados e sentimentos tomados por sofrimentos, incorpora a compaixão. Esta compaixão é um mergulho no outro (que é a mesma essência que o mesmo), esqueço de mim e experimento a superação do desejo em si mesmo que sempre leva à frustração. O interesse no outro é interesse em si mesmo. O eu em si entra em declínio porque se aproxima da dor do outro (malogrados e sofrimentos), e este declínio é o lugar de reconfiguração de si mesmo. Nesta dinâmica há um compadecimento para uma pós-recomposição. A manutenção de um tipo de vida que não liberte o seu “si mesmo” é compaixão. O declínio, quando acontece, tem que ser afundo para se reconfigurar e não usar como medida paleativa de manutenção (exemplo da caridade cristã). O sentimento (afeto) é sentir-se na totalidade plural, transitória e uma que nos perpassam.
O que Nietzsche propõe é a desestabilização da normatividade de padrões de verdade de modo a manter a identidade ou o que for à parte (um exemplo são os negros, gays e todos os que são a parte excluída da sociedade; Nietzsche compõe que o ideal é manter-se à parte, mesmo que custe uma vida intensa com muitos desafios, mas essa não normatividade os impulsiona pra cima, sempre criando novos paradigmas e movimentando o pensamento e o mantendo fora do congelamento da universalidade normativa). O homem deve se vir como matéria prima de si mesmo e artista de si mesmo.
A decadence que Nietzsche faz menção refere-se à desestruturação dos elementos que estão coesos, que se tornam a lógica do niilismo. A deteriorização é igual à corrupção. Valores niilistas são os valores da decadence. Todos os elementos da vida são valor (relação que um elemento tem a outro de modo que quando um ele mento se apresenta a outro um se impõe, renovando e diferenciando-se de si mesmo no devir). Qualquer valor nasce de um tipo vital. Neste viés, o teólogo se localiza como um idealista da deteriorização que nega os sentidos, a ciência, a verdade, as honras...
A crítica se aplica no que a V.P., que está ligada à produção de deuses e em guardar em si toda a trajetória existencial. Os deuses falam de interesses das vontades de poder (multipolaridade do modo de ser). Nietzsche evidencia que há diversos deuses porque há diversas dinâmicas de desejos que produzem deuses diferentes. Este exemplo desconstrói o discurso cristão que emana uma verdade absoluta e destrói a toda multiplicidade de V.P..
A estratégia do cristianismo é falar de “Deus” como algo absoluto, legitimando um modo de vida cristão como a única possível, homogeneizando o modo de ser. Há a necessidade de preservação que busca a homogeneidade. O cristianismo busca formular a falsidade dos outros deuses para que o seu possa sobressair. O budismo, em contraposição, não necessita da negação da alteridade, mas, como religiões da decadence, é niilista como o cristianismo, porém com distinções. Todo tipo de deus legitima uma V.P. que é da religião. No budismo a perfeição é o caso normal, pois a plenitude experimentada se distingue da dor e de qualquer normatividade ou oposição à natureza se mantendo em um estado de tranqüilidade.
Por fim, devemos destacar a percepção de Nietzsche quando dimensiona o pensamento de Paulo como algo que universaliza o tipo Vital do cristianismo, no qual ele critica o judaísmo e o transforma em algo normativo. Nietzsche não vê Jesus nessas interpretações paulinas, pois exclui o acaso e a possibilidade da não normatividade de elementos que compõem uma tradição. Para ele Jesus não pode ser visto nos tipos vitais que se demonstram sintomaticamente nas interpretações dos discursos cristãos. São Francisco, por exemplo, como uma exceção à tradição cristã, esta que nivela o tipo vital de forma manipulativa numa hermenêutica que universaliza um tipo vital não visto pelos que descumpriam a idéia de Jesus “gênio” (conceito moderno) ou “herói” (idéia do herói grego), isto é, os que excluem a idéia de superioridade baseada na verdade absoluta e inalcançável.

A imortalidade (herói) e inacessibilidade (gênio) pregados pela tradição do cristianismo não compõe o Jesus que Nietzsche acredita, mas sim o fruto do discurso cristão.