terça-feira, 28 de junho de 2011

A NOÇÃO DE TEMPO EM AGOSTINHO - Livro XI - Confissões, Trad. Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 2006.


Santo Agostinho, em sua obra "Confissões", revoluciona a escrita do medievo ousando com uma forma extremamente diferente do que se tinha enquanto produção de conhecimento nessa era que tinha a Igreja como principal entidade que reunia os intelectuais mais renomados. Sua devoção pelo cristianismo é bem destacada e difícil de não ser notada nesta obra aqui estudada.
Após se confessar e exprimir seu arrependimento, Santo Agostinho começa a mostrar suas pretensões em tecer comentários, elaborar conceitos e principalmente definir a concepção de tempo segundo a qual podemos assimilar para, por analogia, termos a indução em perceber a ideia de eternidade.
Por um lado, em relação à criação, é forçoso compreender um ser eterno que se exprime a partir da pronúncia da palavra sem estar no tempo. Em suma, o tempo ou surgiu a partir da primeira expressão da palavra, ou ele já existia instantes antes da pronúncia, pois não se pode conceber a pronúncia da palavra sem termos em mente a noção de tempo.
Dizemos que algo foi dito tendo em mente um certo tempo passado que nos recorre na memória, este que mesmo deixando de existir ao findar a pronúncia nos serve como referência para recorrermos à memória e resgatarmos este passado ao presente, como que fazendo-o existir novamente. No entanto, pensar em algo eterno é, acima de tudo, pensar em algo fora do tempo, o que não faz sentido pensando na criação sem tempo e espaço para a realização da mesma.
Compreender o Verbo nos remete a buscar entender como se dá a eternidade do mesmo, e como, no processo de criação, todas as coisas são proferidas ao mesmo tempo eternamente em forma de verdade infalível e imutável. Deste modo Agostinho retira toda a possibilidade da existência do Verbo no tempo, e inclui outros aspectos ligados à eternidade de Deus, sua inteligência e a ação eterna deste Verbo no que está no tempo. Esta inteligência eterna é a fonte da sabedoria, ela é o princípio pelo qual se deu origem à criação do céu e da terra.
Santo Agostinho repreende veementemente aqueles que questionam o que Deus fazia antes de criar o céu e a terra e diz que a vontade de Deus foi o que deu origem à criatura. Neste caso, como podemos compreender a vontade sem a noção de tempo? Como pode existir um ser fora do tempo que seja dinâmico, que em um momento sente vontade e noutro não? Para estas indagações ele responde que tal vontade se encontra na própria substância de Deus, que é eterno e propõe que se é eterna a vontade que exista a criatura, esta criatura também é eterna.
Na diferença entre o tempo e a eternidade imóvel há uma distância extremamente considerável segundo Agostinho. Segundo o mesmo não se pode comparar o sempre móvel com o que sempre existiu. A realidade, mutável e passageira, compreende-se por movimentos que são sucedidos por outros momentos em infindáveis transformações que, no instante em que acontece, existe como presente, e quando passa deixa de existir porque se tornou passado. E o que se pretende por vir, isto é, o futuro, também não existe porque ainda não aconteceu. Não obstante, a noção de passado e futuro, ambos inexistentes, são frutos da existência no presente, pois estes se convertem em memória/recordação no presente do que já passou (passado) e expectativas para o que se tem por vir ou planejamento da sequência lógica vivenciada no presente prevendo acontecimentos posteriores (futuro).
Mediante tais percepções acerca da diferença entre o tempo e a eternidade, torna-se inconcebível, para Santo Agostinho, se perguntar o que fazia Deus antes de criar. Pois não há como pensar em algum feito a não ser na criatura. Outrora, se Deus tivesse feito a criatura, assim iniciar-se-ia o tempo consigo, pois o mesmo teve seu início com a criação, isto é, antes só existia Deus em sua plenitude eterna e imutável. O tempo não poderia existir antes da criação, pois foi Deus quem o criou, e portanto não poderia haver uma indagação acerca deste assunto onde não havia tempo.
O processo de sucessão dos tempos (o presente que se torna passado com o findar do instante e o futuro que se torna presente e tornar-se-á passado com a mobilidade do tempo) não são assim percebidos pela realidade divina, pois esta não tem nem passado nem futuro, mas sim um presente eterno em que os anos não passam, mas são sempre fixos juntos em existência. Se não houvesse no tempo a mobilidade do futuro se tornar presente e em seguida passado, ou seja, se fosse sempre presente, assim não seria o tempo mas sim eternidade. Este presente é algo bem sutil, pois nem mesmo em uma fração de minutos podemos obter todo o presente incluso, mas neste minuto existe o que já passou e o que ainda vai vir. Mas o presente é o devir, o instante em que acontece, o "agora imediato".
Considerando que o que existe é o presente e não o passado, porque já se foi, e nem futuro, porque ainda não se converteu em presente, não pode-se medir o passado porque ele não existe mais, nem o futuro porque não existe ainda. Mas se ambos podem ser percebidos, já não se pode cometer o equívoco em dizer que não existem. Essas concepções estão, na verdade, no que se pode entender como presente, pois é nele que se concebe o passado em forma de recordação e recorrência à memória e é nele que se cria a expectativa do que há de vir no futuro. Portanto, o que se tem é o presente, que se desdobra em recursos cognitivos para se ter a ponte entre passado e futuro. Para tanto, com as palavras de Agostinho o que existe é o "presente dos fatos passados, o presente dos fatos presentes e o presente dos fatos futuros"[1].
Este movimento do tempo não é o movimento dos corpos, apesar dos corpos se moverem no tempo. E este uso é interessante para caracterizar a medida do tempo, pois pode-se medir quando um corpo começa e quando para de se movimentar a partir da duração de seu movimento no tempo. Daí, medirmos um movimento longo por um movimento breve, o comprimento de um texto pela quantidade de palavras, mas mesmo assim isso é relativo, pois um movimento breve executado lentamente pode ter uma duração maior que um movimento longo executado mais rapidamente, o que faz Agostinho chegar a conclusão que o tempo não passa de extensão.
Concluindo, não se pode imaginar o que Deus fazia antes de criar o céu e a terra, ou seja, não poderia fazer nada "nunca" porque "nunca" está implícito na noção de tempo. Este tempo não existia enquanto Deus não o criara, então não se pode dizer que Deus "nunca" fazia nada pois se dissesse seria o mesmo que dissesse que Ele "não fazia nada em tempo algum".[2] Deste modo, nenhum tempo coexiste com Deus, pois o mesmo é o seu criador.


[1] pp. 349.
[2] pp. 361.                                                                                                                                                          

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