sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sobre valer a pena praticar a JUSTIÇA - A Fala de Sócrates.


Após o belo discurso sofista acerca da desvantagem em praticar a justiça, considerando que cometer a injustiça e aparentar ser justo é mais vantajoso, buscando sempre a auto-preservação, Sócrates, admirando tal discurso considera-se, à princípio, incapaz de defender a justiça. Porém, sente-se incomodado em presenciar argumentos tão nocivos à sua concepção de justiça e não defender o que julga ser a mais justa harmonia em práticas da pólis.
            Não obstante, Sócrates inicia sua argumentação ampliando a análise de um indivíduo para a análise da pólis, composta de vários indivíduos. Assim, compreendendo a formação de uma cidade,  poderia perceber a natureza da justiça, assim como a natureza da injustiça.
            Primeiramente Sócrates desfaz o pensamento sofista da auto-suficiência, destacando o homem como parte de um todo que necessita de estar harmonizado com a pólis. Sendo assim, a cada um seria importante que exercesse somente a atividade que tem, por excelência, uma habilidade em destaque, pois seria o melhor (e feliz principalmente) naquilo que faz, cada qual conforme sua natureza.
            Após constatar o tamanho da cidade e a necessidade de importar certas coisas de outras cidades, havendo assim relações com as mesmas, Sócrates acredita na possibilidade de haver guerra pela hegemonia, portanto a necessidades de homens, os chamados guardiões que salvaguardariam a pólis dos males que viriam para sua destruição. Entendendo a impossibilidade de uma só pessoa executar com perfeição várias artes, considerando a guerra como uma arte, era necessário um artista preparado para esta função. Alguém que doasse toda sua vida integralmente à essa prática, sem sentir-se mal, pelo contrário, a exercesse com o maior dos prazeres. Porém, para que houvesse a perfeição na prática desta arte, o guardião da cidade, com toda sua importância, deveria ter um instinto de filósofo, além de uma educação apropriada para que tivesse sua conduta inclinada para seu exercício na cidade. Desde a infância a alma deveria ser moldada para exercer a guarda da pólis, por isso as músicas, as fábulas e qualquer tipo de poesia deveria ser selecionada para que não transmitisse aos jovens, tidos como imaturos e incapazes de diferenciar o que pode ou não ser apreendido de tal expressão artística, a parte ruim das mesmas.
            Sem a atuação dos poetas, induzindo mentiras e trazendo formas dos deuses compreendendo-os de uma maneira deturpada, comparando-os com os erros humanos em uma completa desconstrução do que deveria ser apresentado como ideal para a educação destes homens. Se por outro lado, uma educação reta e padronizada, sem estímulos que tirem o guardião da sanidade, pode-se dizer que este homem teria a honestidade como base de sua atuação na pólis, pois dele dependeria uma grande e importante missão de guardar a cidade.
            Excluindo a conduta dos poetas em descrever, nos contos e fábulas, a conduta de deuses que se demonstram perversos e como praticantes de arbitrariedades que seriam desprezíveis na pólis, ou seja, heróis que não são melhores que os homens, espera-se ter homens honestos. Diferentemente do que os poetas fazem parecer os homens, ou seja, homens justos infelizes e injustos felizes, dando a entender que a injustiça é mais vantajosa.
            Estes homens devem ser educados por pessoas mais velhas, estas que conheceram bem tarde a injustiça, tendo a notado sem fazê-la parte de si, tendo observado-a como coisa alheia aos outros e, logo, a percebendo pelo saber, e não pela experiência própria, compreendesse seu poder devastador.
            Contudo, considerando os moldes de uma cidade feliz, todos os seus habitantes deveriam ser justos, compreendendo que todos exerceriam naturalmente suas funções, a raça de ouro, a de prata e a de bronze, e todas essas partes da cidade estariam sendo educadas, considerando a mobilidade das raças. Pois se toda a sociedade estaria sendo educada e nesta educação houvesse a percepção de cada habilidade pelos educadores, todos eles teriam a honestidade como um ponto positivo, estimulado em sua excelência suas boas práticas que os tornariam ainda melhor que seus antecessores.
            Considerando estes homens de bem, que perpassam por todas as classes da pólis, homens que não precisam de preceitos e que seguem naturalmente as leis, a cidade estaria em completa harmonia, moldada pela educação pautada na justiça. Caso contrário os homens perderiam muito tempo para corrigir os males causados por uma má educação, sem certeza de êxito.
            Uma cidade que é fundada de acordo com a natureza é completamente ponderada e sábia, em todas as partes. De certo modo é possível migrar para uma outra atividade, porém, sem objetivar honrarias nem riquezas, mas sim por pretender desempenhar uma outra função que lhe é nata.
            A importância de desempenhar cada um sua função é o que faz a cidade justa, ponderada, temperada, sábia e corajosa. Cada indivíduo justo coopera para uma cidade justa, ou seja, um todo justo, fluindo harmoniosamente sem ter desvios. Ao passo que a justiça gera a concórdia e a amizade, a injustiça produz nuns e noutros revoltas, os ódios e as contendas, sendo a primeira primordial para uma cidade justa e boa, e a segunda o contrário disso. A ignorância dos injustos o faz criar discórdia em si mesmo, e por outro lado os justos  são melhores e mais capazes de atuar, são mais felizes. Jamais pode-se imaginar uma cidade com injustos, pois não poupariam uns aos outros, trapasseando e criando o caos. A justiça é uma virtude da alma, e a injustiça um defeito, contudo o molde da alma, o qual nos referimos anteriormente seria primordial para o viver bem do homem em harmonia com a pólis.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

“O JESUS HISTÓRICO EM SUA ORIGEM JUDAICA”

                                                     Por Tav Rosh Benyakóv

Discorrer sobre Jesus pode ser demasiado delicado, complexo e contraditório. Pois não é possível determinar que ele tenha sido um ser real, encarnado, com vida social que possa ser reconstituída de forma precisa e histórica. Por outro lado, tudo o que dizem sobre ele, bem como tudo o que tem sido produzido e pregado sob argumento de sua possível existência, influenciou radicalmente a sociedade por dois mil anos. Sendo assim, o Jesus histórico só pode ser estudado e avaliado por meio dos acontecimentos que evocam seu nome e seus valores, capazes de gerar concretas reações no cenário social. Ou seja, entendo que o Jesus histórico é produto do imaginário coletivo - plural e controvertido – ora construído, materializado e manipulado no decorrer da história.
Mas que Jesus histórico será discutido: O da expectativa messiânica judaica, oriunda do cativeiro babilônico? O essênio? O Mestre da Justiça? O rei? O sacerdote?  O eremita ascético? O rabino fariseu? O herege, profano e reacionário que foi condenado à morte por justiça? O que se casou com Maria? O que teve relações sexuais com João? Aquele narrado no cânon cristão ou nos apócrifos? O helenístico? O gnóstico? Ou aquele deificado e forjado para ser dominador romano? Mas romano ortodoxo ou católico? O mesmo Jesus que legitimou a inquisição universal e o pogrom russo? Ou o Jesus também anti-semita, reformado, e luterano, que serviu de base ao protestantismo alemão e nazista? Ou o Jesus que motivou o selvagem capitalismo europeu e americano? Mas deixaria de ser histórico o Jesus mítico, e místico, produzido pela coerção social das tradições imperialistas cristãs? E o Jesus cardecista e esotérico? E o Jesus arquetípico de Jung? Ou o Jesus da experiência pessoal, ora produto da esquizofrenia e demais patologias psíquicas, tal como a fraude do inconsciente? Ou o Jesus mercenário, manipulador, curandeiro, charlatanista, que vende a salvação nos movimentos neopentecostais contemporâneos? Ou, quem sabe, o Jesus imaginativo, lendário, fabuloso e literário que inspira adesões político-partidárias ainda hoje? Sob que perspectiva é possível avaliar este personagem-curinga, que respalda o bem e o mal, a ordem e a revolução, a paz e a guerra, a dominação e a liberdade, a fé e a razão, variando de acordo com a época, grupo social e interesse político de quem o defende? Quem é este ídolo plástico, sempre remodelado pelas mãos dos artífices-ideológicos que trabalham para a crescente legitimação e manutenção do poder? Quem é este ídolo de barro que é vivificado, adorado e imortalizado pela alienante crendice das massas?
Ao focar a atenção somente no período contextual do segundo Templo de Jerusalém, por volta de 515 a.e.c até 70 e.c, percebe-se que a fé judaica estava dividida em diversos segmentos: samaritanos, saduceus, escribas, fariseus, essênios, zelotas, macabeus, herodianos, sicários, caraítas... e, por fim, cristãos. Nota-se, a partir desta introdução, que o judaísmo nunca foi uma religião homogênea, detentora de um só dogma. Ao contrário, sempre foi plural e, às vezes, os judeus discordavam quase plenamente em suas crenças à medida que seguiam de uma facção à outra. Em função disto, segundo o historiador Flávio Josefo, em meados de 150 a.e.c, um grupo de ascéticos separatistas, denominado essênio, migrou ao deserto por encontrar-se insatisfeito com a religiosidade, política e helenismo predominantes em Israel. Os essênios dividiam-se em grupos de 12, vestiam-se de branco, usavam barbas, eram celibatários, acreditavam em cura pela imposição de mãos, aboliam a propriedade privada, eram vegetarianos, realizavam batismos, praticavam o ritual da ceia com vinho e pão, expulsavam demônios, acreditavam no Bem e no Mal, em filhos da Luz e das Trevas, não aceitavam sacrifícios de animais, desprezavam o Templo, acreditavam na vinda de um messias libertador, valorizavam as escrituras sagradas e dedicavam-se a estudá-las – sendo estas também as principais características de Jesus e seus discípulos, conforme narrativa dos Evangelhos.  Assim, possivelmente, os essênios teriam lançado as principais bases teológicas do cristianismo primitivo – e ainda judaico. E mais que isto, pois, talvez, tendo sido o Mestre da Justiça um tipo de messias judeu - dentre tantos outros que já existiram - fora progressivamente mitificado pelos primeiros gnósticos-cristãos ao ponto de, séculos mais tarde, também ser usurpado e deificado pelo Império Romano. 
Independente de quem, exatamente, tenha sido o Jesus histórico, é notório que ele foi filho do judaísmo e representava exclusivamente as expectativas sociais, políticas, religiosas e messiânicas de determinados segmentos israelitas. Inclusive os Evangelhos (escritos entre 70 e 90 da e.c) testemunham que os pais de Jesus e seus discípulos eram judeus, da linhagem de David; ele freqüentava as sinagogas, o Templo, e colocava-se a reinterpretar livremente a Torá e as Escrituras, tal como um rabino fariseu; seus ouvintes eram basicamente israelitas; e mesmo Paulo, que foi o maior propagador de Jesus, era fariseu convicto, criado aos pés de Gamaliel, detendo profundo conhecimento da Lei judaica; e, segundo os Atos dos Apóstolos - apesar do proselitismo e da contínua conversão de gentios ao judaísmo - o tema do possível messianismo de Jesus era sempre discutido entre judeus e dentro das sinagogas. Mas o conceito judeu de messias era simplesmente o de "libertador e restaurador político”. Jesus nunca foi considerado "deus-encarnado" na religião judaica, nem parte de uma trindade divina – isto era considerado blasfêmia, heresia, profanação e idolatria, sendo absurdamente incompatível com a cultura deles. Consequentemente, a grande maioria de judeus repudiou completamente a Teologia Paulina, causando uma cisão definitiva entre judeus e cristãos. E o Império Romano perseguia tanto a um quanto ao outro, torturando-os, queimando-os, e matando-os durante os quatro primeiros séculos. Somente em 313 da e.c. que Constantino se converteu ao cristianismo primitivo e concedeu liberdade de culto a Roma, mandando construir a primeira igreja com seu próprio dinheiro. Em 325 e.c., no Concílio de Nicéia, Constantino tentou unificar o pensamento cristão e eleger alguns dogmas - tal como a doutrina ariana, que defendia a divinização de Jesus.  Em 330 e.c. a capital do império foi transferida para Constantinopla; e apenas em 380 da e.c.,Teodósio tornou o cristianismo uma religião estatal. A partir deste momento concretiza-se a maior usurpação religiosa da história: o carpinteiro judeu é transformado num deus romano, a Tanach é substituída pelo Novo Testamento, as sinagogas cedem lugar às igrejas, as raízes judaicas são extirpadas e recebem uma maquiagem helenizada, o povo judeu é desapropriado de suas riquezas e amplamente exterminado sob o trágico argumento de terem “assassinado o Filho de Deus” - e o judaísmo é transformado em cristianismo, dando início à tenebrosa Idade das Trevas.
Sob esta brevíssima e superficial perspectiva, já é possível perceber que o Jesus pregado pela igreja – seja ela Ortodoxa, Católica, Protestante ou Neoprotestante - tornou-se mais que uma mitificação progressiva e naturalmente mutante, mas uma fraude histórica a serviço do poder. Trata-se de um Jesus roubado, deturpado, forjado, recriado, folheado a ouro – desde a Patrística, Escolástica, Reforma – para ser forçosamente comprado por parcelas incultas da população. Todavia, esta conclusão não encerra a discussão sobre Jesus e aponta para infinitas outras problematizações históricas, culturais, religiosas, sociais, políticas, psicológicas e ontológicas - algumas das quais sugeridas no segundo parágrafo deste artigo - que necessitam de maior atenção, pesquisa e aprofundamento filosófico. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Por que tanta hipocrisia?


Por Peter Sana

            Por que somos tão atraídos pela hipocrisia? Por que temos tendência a agir de forma tão indesejável longe dos que nos fiscalizam? Será que estamos totalmente restritos à fiscalização, e será que não há nenhum erro na construção da sociedade então? Pois não consigo imaginar como se chegou nesse ponto! Talvez colocar a culpa no "primeiro de todos" não seja suficiente para provar como aconteceu o desvirtuar-se da humanidade. Estou profundamente encabulado com o efeito que a cultura da má política causa nas pessoas mantidas na caverna escura da ignorância. É incrível a imobilidade social, pois não há sequer descontentamento vigoroso. No máximo especulações medonhas de sofridos homens de pés descalços e mãos com calos de tanto produzir riquezas para os terríveis dinossauros carnívoros (T-Rex) da sociedade.
            Desta vez, o que se fala da política é que vai virar uma bagunça, vão colocar os gays todos na igreja para realizarem o casamento, e os padres, pastores, chefes de religião, e mais o que seja terão de realizar o procedimento religioso. Enfim, o aborto vai ser permitido, aí vai acontecer um reboliço no Brasil. Não haverá mais respeito nem "ordem". Ora bolas! Onde é que se existiu respeito aqui? O aborto já é permitido. Me desculpem! Não é permitido para todos, e sim para as pessoas que podem pagar uma clínica clandestina ou sair do país para realizá-lo. Apenas os miseráveis precisam tomar chá de maconha para expulsar o que fora um acidente. Onde está a liberdade de escolher o que é melhor para si? Onde está a educação que não sobe as favelas como a polícia vem subindo para matar? Se a educação é o que liberta, por que não deixamos este povo livre dando educação? Kant fala sobre a maioridade a partir do pensamento e do raciocínio próprio, da sistematização sem influência direta e definitiva de outrém, mas será que há adultos no nosso país capazes de decidir o melhor? Há? Vejo simplesmente pessoas decidindo pela alienante certeza de que uma vida padronizada nesta terra que jaz maligno, com regras escritas nos manuais sagrados de religião, será suficiente para garantir riquezas e felicidade numa posteridade. Como assim? E largamos tudo aqui? Vamos pensar em política para a perpetuação da ignorância de grupos religiosos que tentam a hegemonia mundial e dominação das mentes menos esclarecidas? O que há de errado com os homosexuais? O que há de errado com as mulheres? O que há de errado com os que não são brancos nem europeizados? O que há de errado com manter o Estado laico? Se é que deveria haver Estado. Mas então voltamos ao dilema anterior: para fiscalizar as pessoas, colocamos outras pessoas, que julgamos especialistas nesta virtude de fazer o que é justo. Mas na verdade, deveríamos ser todos justos, todos pensantes, todos peritos em nossas propostas de vida, que apesar de deturpadas pela influência do sócio-cultural, são a nossa essência.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fast Religion: Apud Fast Food.


                                         Por Peter Sana      

                A sociedade contemporânea, acostumada a ir ao shopping, comer na praça de alimentação, reunindo a família em um rápido momento de "confraternização" para fugir, ou simplesmente completar a correria da semana, tem esse hábito, introduzido nas veias pelos capitalistas, injetada de forma agressiva e sedutora, porque faz parte - indubitavelmente- do sistema consumista, em que o sistema busca através da propaganda ditar como ideal certo modo de vida, certos hábitos e uma frase, dentre outras frases, que está ligada ao método de continuar dominando, que é dizer que "tempo é dinheiro". Acelerando o mundo de forma absurda, seja no cotidiano de vida das pessoas, seja no consumo excessivo dos recursos naturais, buscando de forma abusiva o conforto máximo, que por sinal não atinge a maior parte da população do mundo.
                A busca rápida por soluções, por "melhores" meios de sobreviver neste planeta, ou simplesmente meios mais confortáveis de levar a vida, nos dá uma sensação de que o tempo passa voando, de que tudo muda num instante, afinal, o mundo pode explodir a partir de uma ordem em menos de um minuto! Entretanto, frustrações ocorrem quando não se alcança o objetivo traçado pelo mundo da propaganda consumista. Há uma decepção, que habita nas mentes de quem foi posto à margem de toda essa falsa prosperidade, que de momentos em momentos se desestrutura encadeando uma crise financeira baseada nas especulações em diversos setores. E esta frustração há de ser suprida. E quando esta sociedade não oferece meios para estabelecer a cura para esses males que deprimem os excluídos, há um outro meio de manter o domínio quando dá-se a entender que há algo de errado com esse indivíduo que não atingiu o auge traçado pelas elites e seus meios de comunicação em massa.
                Surge a "Fast Religion", com o objetivo de prometer soluções rápidas e imediatas para os sofredores miseráveis que não se adaptam ao sistema, ou melhor, que são explorados pelos mandantes do sistema, pois como Marx disse, "o trabalho assalariado é um escravismo mais moderno" . E esta solução imediata é seguida de regras de manipulação em que só opera o benefício em favor daquele que segue perfeitamente a doutrina que o líder religioso DETERMINA como ideal. É um caso que não há subentendido aos olhos desvendados. Uma condição que pretende, não obstante, prometer no âmbito espiritual o que o mundo material o negou, ou sendo mais exato, o que o mundo social o negou.
                A busca por rápidas soluções prósperas são um meio de manter o privilégio de poucos, trazendo os problemas para o âmbito espiritual e retirando por completo a ênfase no sócio/econômico. Estas promessas são sempre de prosperidade, desde que haja a DISCIPLINA e a conservação do velho "esquema" que vem determinando a inferioridade do trabalhador desde o Coronelismo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Obediência e Prosperidade

por Peter Sana
Acompanhando as regiões mais povoadas do Rio de Janeiro, sem muito rigor, percebe-se uma grande diversidade entre as igrejas Protestantes, centros de Umbanda e Candomblé, e até outras religiões menos conhecidas pelo vulgo. Este fenômeno é cada vez mais comum na Baixada Fluminense, e isto desde a primeira metade do século XX. Ouvimos sempre falar que  somos um país majoritariamente católico, que seguimos com veemência a tradição dos nossos colonizadores, que mais extraíram riquezas do que propriamente povoaram esta região em ritmo de colônia, mas na verdade somos uma diversidade imensa de religiões, crenças e hábitos religiosos, que seguimos uma lógica cristã católica acompanhado pela conjuntura mundial. O interesse por preservação do que é de costume nos eleva ao posto de tradicionais, e isso na parte mais significante do tempo, ou seja, passamos grande parte do tempo de nossas vidas seguindo regras que nada nos acrescentam, mas sim nos limitam a viver na escuridão da caverna. E a parte mais degradante de tudo isso é que gostamos de seguir à risca a trilha traçada, sem desviar, ou simplesmente fomos acostumados a gostar , "educados" a gostar. Mas se somos ensinados a permanecer  em inércia, por que não podemos ser ensinados a participar do que antes nos fora privado? Essa é uma das questões mais intrigantes que nos leva a pensar em uma obediência voluntária, que intimida cada pessoa através de  métodos totalmente eficazes  que, por incrível que pareça, se baseiam na negação ao que  a modernidade conquistou, no que se esclarece com  o iluminismo e rompe com o marco da religiosidade do medievo. Nesses anos novecentos, o distanciamento da Igreja católica das periferias deixou um espaço para o preenchimento desta necessidade de suprir os problemas sociais à todo custo. Com o descaso das elites à situação dos pobres, como diria o Bispo D. Adriano Hypólito, os mesmos ficam cada vez mais à margem da população, cabendo a eles recorrerem  com violência a uma solução, ou simplesmente na forma de busca espiritual por uma saída desta situação desumana que o próprio ser humano, seu semelhante,  proporciona à sua raça. Neste ultimo caso, a proposta de prosperidade nas quais as instituições Protestantes e religiões afro se baseiam, é o que mais atrai a classe marginalizada, mesmo que essa proposta custe algumas arestas de suas liberdades, e mesmo que não mude nada em seu momento de vida, a promessa de vida próspera após a morte alivia a falta de condições básicas na vida na terra. O iluminare que deu origem ao Protestantismo não mais habita nas mentes dos praticantes, que trocam suas liberdades por promessas de vida próspera, seguindo uma vida de preservação de prestígios das elites, trazendo um olhar crítico aos pobres, de modo que abstraia um entendimento de que aquele que é pobre, que não segue ao seus "preceitos cristãos",  não tem salvação e é merecedor do sofrimento. Não obstante, o que se espera é sempre uma vida com conquistas materiais, desde que haja submissão à doutrina pré-estabelecida, de acordo com cada denominação (tratando aqui em específico o caso protestante, entendendo que há outros aspectos diversificados para o propósito de prosperidade das religiões afro). Entende-se que se há uma falta de prosperidade é porque não há uma entrega efetiva ao que diz respeito à proposta divina deturpada pelos que pregam prosperidade. O modo que há de fazer a manutenção da autoridade é inteiramente estabelecido por pressão, conforme a rendição do fiel à prática com sua obediência voluntária, sempre aguardando o dia em que Deus cumpriria a promessa de prosperidade. Sem levar em conta que sua liberdade fica retida a seguir uma filosofia de vida que pouco se compara ao que Cristo sonhou como liberdade para o ser humano. Ora, se preso ao conforto material é ser feliz, jamais validaria a proposta de viver bem tão sonhada pelos gregos da antiguidade e propriamente a origem da religião cristã. Os teólogos da libertação, sendo grande parte formada por católicos, e uma pequena parte por protestantes, foi o que houve de contrário ao domínio das elites pela religião. Seguindo as elites, as tendo como responsáveis pela ligação entre os homens e Deus, ao instalarem a obediência voluntária em cada membro de sua denominação evangélica, comprometem-se, estes fiéis, a  respeitar a autoridade do líder. Com todo esse poder fica evidente que se incorpora certo interesse em crescimento, seguindo a lógica mundial do capitalismo, por outro lado, fica muito longe do verdadeiro sentido de ser cristão. Michael Lövy, cita Bloch em sua obra "Marxismo e Teologia da Libertação", o qual diz que a possibilidade dessa anulação de autoridade é formar um possível "ateu religioso", que permitiria uma rendição à causa cristã de origem inquestionável, uma causa pelos pobres, e tiraria toda a autoridade dos que se pré-dispõem a liderar um grupo de pessoas alienando-as de forma a oprimi-las, em busca de um ideal que está longe de ser um ideal cristão de busca pela LIBERDADE e contra a legitimação da autoridade pela proposta de prosperidade.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sobre a Natureza Humana

Peter Sana

Como podemos desvendar o mistério da natureza humana sem termos dados empíricos do Primeiro Homem que pensou? A tarefa não é muito fácil.Podemos discutir sob as mais váriadas perspectivas, mas na verdade só teríamos modelagens de pensamento, e não exatamente a resposta para as origens da natureza humana.
Temos, diante de várias hipóteses, todas elas bem estruturadas, porém, não tão bem recebidas por nós em algumas perspectivas, os sofistas, que dizem que as obras legislativas que organizam o homem em sua sociedade não passam de uma mera convenção, em que visam sempre a auto-preservação. Visto que se um homem comete uma injustiça, logo isso o faz bem, então a injustiça para ele é um bem, mas, além disso, garantir q ele próprio não sofra uma injustiça está acima do bem que é cometê-la. Concluímos que, do ponto de vista sofista, essa natureza humana é má, e o homem passa por sua vida inteira buscando sua auto-preservação.
Por outro lado, mesmo tendo em vista uma concordância com a caracteristica natural do homem sendo má como os sofistas, Platão vai acreditar que pode-se domar essa natureza má: com a razão. Ela (a razão), suprema entre todas, para Platão é a salvação da pólis, é o caminho para o bem da cidade. Mas como podemos elevar todos os habitantes da pólis à razão? Platão aposta na paidéia, a educação, os estímulos ao sentimento patriota, e é esse estímulo à razão que levará os submetidos à essa idéia ao equilíbrio da alma. Contando com um universo separado da imanência, o filósofo pôde contemplar a luz, e é esta luz, que não é acessível à todos, somente aos "escolhidos e separados que têm o dom e a abertura à filosofia", que iluminará o caminho a ser seguido em rumo à cidade perfeita.
Platão aposta num universo das idéias, é autoritário e manipulador ao tentar encaixar todas as pessoas em um formato específico. Priorizando o filósofo ele tenta estabelecer uma cidade comandada pelos mesmos, onde o tal terá os conceitos de bom, belo e justo intrísecos à sua atividade política, e tendo a razão por cima do sensível conseguiria equilibrar a natureza humana má em sua essência.
Aristóteles já é mais realista, mostrando um caminho para a felicidade, porém ainda acreditando no homem como um ser perverso por natureza. Entretanto, para Aristóteles, o homem busca mais do que simplesmente sua auto-preservação, busca sua felicidade. E como se dá essa busca? Pois poderíamos entender felicidade, tratando do senso comum, como várias formas de obras, ou mesmo resultado de obras. Assim como a maioria pensa que ter riqueza é ser feliz, ter prazeres é ser feliz, ou mesmo receber honrarias. Mas não seria muito pouco para ser digno de felicidade? Se um homem por acaso perdesse sua riqueza, ou seus prazeres, ou suas honrarias, perderia sua felicidade? Para Aristóteles a felicidade não pode ser perdida assim tão fácil. É uma excelência. Esse bem maior é o bem ao qual todos os bens estão subordinados, contudo, assim o bem é a finalidade com que nós agimos, ou simplesmente realizamos obras. Claro que existem obras por si que já são um bem, mas de qualquer forma elas visam um outro bem além, uma finalidade. Não obstante, o homem é um ser social, um animal político e a convivência em harmonia com os habitantes da pólis em clima de amizade (philia), e sendo assim, se agirmos em busca da felicidade, todos os atos serão louváveis enquanto obras, porque visarão a felicidade. Na verdade "o bem e a perfeição residem na função". Agir conforme a excelência traz a tona a ação em conformidade com as faculdades da alma e isso o fará feliz.
Portanto a busca da felicidade, aquele bem maior ao qual estão subordinados todos os bens, faz do homem um ser virtuoso, com uma forma de condução boa da vida. A busca constante por estas virtudes, se afastando das provocações que desvirtuam a alma da busca da felicidade torna o homem em um ser bom, por inibição de seus males naturais.
O cristianismo, visto toda a carga de influência dos orfistas, da própria transcendência platônica, com Sto. Agostinho traz uma proposta bem positiva em relação à natureza humana. Contestando o ponto de vista que coloca o ser humano como um ser de natureza perversa, Agostinho vai dizer que tudo é Deus, Ele está em todas as coisas, todos os bens envolvem Deus, Ele criou tudo, tudo dele veio, portanto o homem não pode ser outra coisa senão um ser bom. Segundo o mesmo,o homem somente atingiria o mal ao afastar-se do bem. Pois se Deus está em todas as coisas, e Deus é a excelência maior do bem, algo jamais poderia deixar de ser bom, simplesmente e excepcionalmente não seria desta maneira se o homem se esvaziasse do bem, ou seja, por afastar-se de Deus, pois ao afastar-se da luz encontra-se as trevas, e esta é a ausência de luz e não existe na presença da outra.
John Lennon soube bem dizer o que é “Deus” ao afirmar que “God is a conception”. Concordamos com o mesmo e acrescentamos que esta concepção, assim como a de “melhor dos bens” ou “bem supremo” são, neste caso, uma só coisa. Deus e demônio, bem e mal, razão e emoção, educação e ignorância, todos esses extremos contrários estão intrisecamente ligados no que buscamos entender.
Talvez não consigamos chegar a objetivo algum, pois como afirmei no início deste texto, não temos dados empírico do primeiro homem para estudá-lo e compreender sua natureza. Mas podemos nos esforçar em entender a dinâmica que acontece com os dados do homem que entendemos e que temos acesso.
Vivemos em conflito interno. E este conflito se dá no equilíbrio das naturezas boas e más as quais vivemos tentando ter completo domínio. Por um lado Deus, o bem, a razão e a educação são aspectos positivos, que equacionados e relacionados entre si, nessa questão da natureza compreendemos como uma parte só, que sustenta a parte boa do homem, por outro lado os demônios, o mal, a emoção, a ignorância são o sustento da parte má do homem. Mas para saber o que desequilibra esta harmonia interna precisamos entender o primeiro que desvirtuou-se deste equilíbrio, e não o sabemos, por isso acreditamos que, se por um lado Deus (ou maior de todos os bens, como preferimos) se destaca, justamente por atitude racional, que só foi possível através de uma educação destinada à cognição das verdadeiras virtudes do homem bom, este homem não tem outro caminho senão a prática de boas obras, como um ser social e em busca da felicidade, não só individual, mas coletiva. Suas obras serão belas, seus caminhos virtuosos e iluminados pela luz do conhecimento, razão potencializado pelo bem supremo.
Termos como “verdadeiras virtudes do homem bom” podem não ser tão claros por serem tão abstratos e dignos de interpretações das mais variadas, mas neste caso, pela finalidade que traçamos ao dizer que o equilíbrio se desdobra para o maior de todos os bens em função da felicidade própria junto à sociedade temos um foco bem direto e, se não tão claro, menos propício à abertura interpretativa. Considerando parte da educação como um desvelar das coisas fúteis, das coisas essenciais, das boas obras, da percepção de que onde não há luz há trevas, e onde há trevas há caos e desordem, o homem em si saberá como distinguir o que é bom para o todo, pois sempre pensar no todo o faz um ser social bem harmonizado e equilibrado pelo peso pendendo às bem-aventuranças.