quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sobre a Natureza Humana

Peter Sana

Como podemos desvendar o mistério da natureza humana sem termos dados empíricos do Primeiro Homem que pensou? A tarefa não é muito fácil.Podemos discutir sob as mais váriadas perspectivas, mas na verdade só teríamos modelagens de pensamento, e não exatamente a resposta para as origens da natureza humana.
Temos, diante de várias hipóteses, todas elas bem estruturadas, porém, não tão bem recebidas por nós em algumas perspectivas, os sofistas, que dizem que as obras legislativas que organizam o homem em sua sociedade não passam de uma mera convenção, em que visam sempre a auto-preservação. Visto que se um homem comete uma injustiça, logo isso o faz bem, então a injustiça para ele é um bem, mas, além disso, garantir q ele próprio não sofra uma injustiça está acima do bem que é cometê-la. Concluímos que, do ponto de vista sofista, essa natureza humana é má, e o homem passa por sua vida inteira buscando sua auto-preservação.
Por outro lado, mesmo tendo em vista uma concordância com a caracteristica natural do homem sendo má como os sofistas, Platão vai acreditar que pode-se domar essa natureza má: com a razão. Ela (a razão), suprema entre todas, para Platão é a salvação da pólis, é o caminho para o bem da cidade. Mas como podemos elevar todos os habitantes da pólis à razão? Platão aposta na paidéia, a educação, os estímulos ao sentimento patriota, e é esse estímulo à razão que levará os submetidos à essa idéia ao equilíbrio da alma. Contando com um universo separado da imanência, o filósofo pôde contemplar a luz, e é esta luz, que não é acessível à todos, somente aos "escolhidos e separados que têm o dom e a abertura à filosofia", que iluminará o caminho a ser seguido em rumo à cidade perfeita.
Platão aposta num universo das idéias, é autoritário e manipulador ao tentar encaixar todas as pessoas em um formato específico. Priorizando o filósofo ele tenta estabelecer uma cidade comandada pelos mesmos, onde o tal terá os conceitos de bom, belo e justo intrísecos à sua atividade política, e tendo a razão por cima do sensível conseguiria equilibrar a natureza humana má em sua essência.
Aristóteles já é mais realista, mostrando um caminho para a felicidade, porém ainda acreditando no homem como um ser perverso por natureza. Entretanto, para Aristóteles, o homem busca mais do que simplesmente sua auto-preservação, busca sua felicidade. E como se dá essa busca? Pois poderíamos entender felicidade, tratando do senso comum, como várias formas de obras, ou mesmo resultado de obras. Assim como a maioria pensa que ter riqueza é ser feliz, ter prazeres é ser feliz, ou mesmo receber honrarias. Mas não seria muito pouco para ser digno de felicidade? Se um homem por acaso perdesse sua riqueza, ou seus prazeres, ou suas honrarias, perderia sua felicidade? Para Aristóteles a felicidade não pode ser perdida assim tão fácil. É uma excelência. Esse bem maior é o bem ao qual todos os bens estão subordinados, contudo, assim o bem é a finalidade com que nós agimos, ou simplesmente realizamos obras. Claro que existem obras por si que já são um bem, mas de qualquer forma elas visam um outro bem além, uma finalidade. Não obstante, o homem é um ser social, um animal político e a convivência em harmonia com os habitantes da pólis em clima de amizade (philia), e sendo assim, se agirmos em busca da felicidade, todos os atos serão louváveis enquanto obras, porque visarão a felicidade. Na verdade "o bem e a perfeição residem na função". Agir conforme a excelência traz a tona a ação em conformidade com as faculdades da alma e isso o fará feliz.
Portanto a busca da felicidade, aquele bem maior ao qual estão subordinados todos os bens, faz do homem um ser virtuoso, com uma forma de condução boa da vida. A busca constante por estas virtudes, se afastando das provocações que desvirtuam a alma da busca da felicidade torna o homem em um ser bom, por inibição de seus males naturais.
O cristianismo, visto toda a carga de influência dos orfistas, da própria transcendência platônica, com Sto. Agostinho traz uma proposta bem positiva em relação à natureza humana. Contestando o ponto de vista que coloca o ser humano como um ser de natureza perversa, Agostinho vai dizer que tudo é Deus, Ele está em todas as coisas, todos os bens envolvem Deus, Ele criou tudo, tudo dele veio, portanto o homem não pode ser outra coisa senão um ser bom. Segundo o mesmo,o homem somente atingiria o mal ao afastar-se do bem. Pois se Deus está em todas as coisas, e Deus é a excelência maior do bem, algo jamais poderia deixar de ser bom, simplesmente e excepcionalmente não seria desta maneira se o homem se esvaziasse do bem, ou seja, por afastar-se de Deus, pois ao afastar-se da luz encontra-se as trevas, e esta é a ausência de luz e não existe na presença da outra.
John Lennon soube bem dizer o que é “Deus” ao afirmar que “God is a conception”. Concordamos com o mesmo e acrescentamos que esta concepção, assim como a de “melhor dos bens” ou “bem supremo” são, neste caso, uma só coisa. Deus e demônio, bem e mal, razão e emoção, educação e ignorância, todos esses extremos contrários estão intrisecamente ligados no que buscamos entender.
Talvez não consigamos chegar a objetivo algum, pois como afirmei no início deste texto, não temos dados empírico do primeiro homem para estudá-lo e compreender sua natureza. Mas podemos nos esforçar em entender a dinâmica que acontece com os dados do homem que entendemos e que temos acesso.
Vivemos em conflito interno. E este conflito se dá no equilíbrio das naturezas boas e más as quais vivemos tentando ter completo domínio. Por um lado Deus, o bem, a razão e a educação são aspectos positivos, que equacionados e relacionados entre si, nessa questão da natureza compreendemos como uma parte só, que sustenta a parte boa do homem, por outro lado os demônios, o mal, a emoção, a ignorância são o sustento da parte má do homem. Mas para saber o que desequilibra esta harmonia interna precisamos entender o primeiro que desvirtuou-se deste equilíbrio, e não o sabemos, por isso acreditamos que, se por um lado Deus (ou maior de todos os bens, como preferimos) se destaca, justamente por atitude racional, que só foi possível através de uma educação destinada à cognição das verdadeiras virtudes do homem bom, este homem não tem outro caminho senão a prática de boas obras, como um ser social e em busca da felicidade, não só individual, mas coletiva. Suas obras serão belas, seus caminhos virtuosos e iluminados pela luz do conhecimento, razão potencializado pelo bem supremo.
Termos como “verdadeiras virtudes do homem bom” podem não ser tão claros por serem tão abstratos e dignos de interpretações das mais variadas, mas neste caso, pela finalidade que traçamos ao dizer que o equilíbrio se desdobra para o maior de todos os bens em função da felicidade própria junto à sociedade temos um foco bem direto e, se não tão claro, menos propício à abertura interpretativa. Considerando parte da educação como um desvelar das coisas fúteis, das coisas essenciais, das boas obras, da percepção de que onde não há luz há trevas, e onde há trevas há caos e desordem, o homem em si saberá como distinguir o que é bom para o todo, pois sempre pensar no todo o faz um ser social bem harmonizado e equilibrado pelo peso pendendo às bem-aventuranças.
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