terça-feira, 14 de setembro de 2010

Obediência e Prosperidade

por Peter Sana
Acompanhando as regiões mais povoadas do Rio de Janeiro, sem muito rigor, percebe-se uma grande diversidade entre as igrejas Protestantes, centros de Umbanda e Candomblé, e até outras religiões menos conhecidas pelo vulgo. Este fenômeno é cada vez mais comum na Baixada Fluminense, e isto desde a primeira metade do século XX. Ouvimos sempre falar que  somos um país majoritariamente católico, que seguimos com veemência a tradição dos nossos colonizadores, que mais extraíram riquezas do que propriamente povoaram esta região em ritmo de colônia, mas na verdade somos uma diversidade imensa de religiões, crenças e hábitos religiosos, que seguimos uma lógica cristã católica acompanhado pela conjuntura mundial. O interesse por preservação do que é de costume nos eleva ao posto de tradicionais, e isso na parte mais significante do tempo, ou seja, passamos grande parte do tempo de nossas vidas seguindo regras que nada nos acrescentam, mas sim nos limitam a viver na escuridão da caverna. E a parte mais degradante de tudo isso é que gostamos de seguir à risca a trilha traçada, sem desviar, ou simplesmente fomos acostumados a gostar , "educados" a gostar. Mas se somos ensinados a permanecer  em inércia, por que não podemos ser ensinados a participar do que antes nos fora privado? Essa é uma das questões mais intrigantes que nos leva a pensar em uma obediência voluntária, que intimida cada pessoa através de  métodos totalmente eficazes  que, por incrível que pareça, se baseiam na negação ao que  a modernidade conquistou, no que se esclarece com  o iluminismo e rompe com o marco da religiosidade do medievo. Nesses anos novecentos, o distanciamento da Igreja católica das periferias deixou um espaço para o preenchimento desta necessidade de suprir os problemas sociais à todo custo. Com o descaso das elites à situação dos pobres, como diria o Bispo D. Adriano Hypólito, os mesmos ficam cada vez mais à margem da população, cabendo a eles recorrerem  com violência a uma solução, ou simplesmente na forma de busca espiritual por uma saída desta situação desumana que o próprio ser humano, seu semelhante,  proporciona à sua raça. Neste ultimo caso, a proposta de prosperidade nas quais as instituições Protestantes e religiões afro se baseiam, é o que mais atrai a classe marginalizada, mesmo que essa proposta custe algumas arestas de suas liberdades, e mesmo que não mude nada em seu momento de vida, a promessa de vida próspera após a morte alivia a falta de condições básicas na vida na terra. O iluminare que deu origem ao Protestantismo não mais habita nas mentes dos praticantes, que trocam suas liberdades por promessas de vida próspera, seguindo uma vida de preservação de prestígios das elites, trazendo um olhar crítico aos pobres, de modo que abstraia um entendimento de que aquele que é pobre, que não segue ao seus "preceitos cristãos",  não tem salvação e é merecedor do sofrimento. Não obstante, o que se espera é sempre uma vida com conquistas materiais, desde que haja submissão à doutrina pré-estabelecida, de acordo com cada denominação (tratando aqui em específico o caso protestante, entendendo que há outros aspectos diversificados para o propósito de prosperidade das religiões afro). Entende-se que se há uma falta de prosperidade é porque não há uma entrega efetiva ao que diz respeito à proposta divina deturpada pelos que pregam prosperidade. O modo que há de fazer a manutenção da autoridade é inteiramente estabelecido por pressão, conforme a rendição do fiel à prática com sua obediência voluntária, sempre aguardando o dia em que Deus cumpriria a promessa de prosperidade. Sem levar em conta que sua liberdade fica retida a seguir uma filosofia de vida que pouco se compara ao que Cristo sonhou como liberdade para o ser humano. Ora, se preso ao conforto material é ser feliz, jamais validaria a proposta de viver bem tão sonhada pelos gregos da antiguidade e propriamente a origem da religião cristã. Os teólogos da libertação, sendo grande parte formada por católicos, e uma pequena parte por protestantes, foi o que houve de contrário ao domínio das elites pela religião. Seguindo as elites, as tendo como responsáveis pela ligação entre os homens e Deus, ao instalarem a obediência voluntária em cada membro de sua denominação evangélica, comprometem-se, estes fiéis, a  respeitar a autoridade do líder. Com todo esse poder fica evidente que se incorpora certo interesse em crescimento, seguindo a lógica mundial do capitalismo, por outro lado, fica muito longe do verdadeiro sentido de ser cristão. Michael Lövy, cita Bloch em sua obra "Marxismo e Teologia da Libertação", o qual diz que a possibilidade dessa anulação de autoridade é formar um possível "ateu religioso", que permitiria uma rendição à causa cristã de origem inquestionável, uma causa pelos pobres, e tiraria toda a autoridade dos que se pré-dispõem a liderar um grupo de pessoas alienando-as de forma a oprimi-las, em busca de um ideal que está longe de ser um ideal cristão de busca pela LIBERDADE e contra a legitimação da autoridade pela proposta de prosperidade.

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