sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fast Religion: Apud Fast Food.


                                         Por Peter Sana      

                A sociedade contemporânea, acostumada a ir ao shopping, comer na praça de alimentação, reunindo a família em um rápido momento de "confraternização" para fugir, ou simplesmente completar a correria da semana, tem esse hábito, introduzido nas veias pelos capitalistas, injetada de forma agressiva e sedutora, porque faz parte - indubitavelmente- do sistema consumista, em que o sistema busca através da propaganda ditar como ideal certo modo de vida, certos hábitos e uma frase, dentre outras frases, que está ligada ao método de continuar dominando, que é dizer que "tempo é dinheiro". Acelerando o mundo de forma absurda, seja no cotidiano de vida das pessoas, seja no consumo excessivo dos recursos naturais, buscando de forma abusiva o conforto máximo, que por sinal não atinge a maior parte da população do mundo.
                A busca rápida por soluções, por "melhores" meios de sobreviver neste planeta, ou simplesmente meios mais confortáveis de levar a vida, nos dá uma sensação de que o tempo passa voando, de que tudo muda num instante, afinal, o mundo pode explodir a partir de uma ordem em menos de um minuto! Entretanto, frustrações ocorrem quando não se alcança o objetivo traçado pelo mundo da propaganda consumista. Há uma decepção, que habita nas mentes de quem foi posto à margem de toda essa falsa prosperidade, que de momentos em momentos se desestrutura encadeando uma crise financeira baseada nas especulações em diversos setores. E esta frustração há de ser suprida. E quando esta sociedade não oferece meios para estabelecer a cura para esses males que deprimem os excluídos, há um outro meio de manter o domínio quando dá-se a entender que há algo de errado com esse indivíduo que não atingiu o auge traçado pelas elites e seus meios de comunicação em massa.
                Surge a "Fast Religion", com o objetivo de prometer soluções rápidas e imediatas para os sofredores miseráveis que não se adaptam ao sistema, ou melhor, que são explorados pelos mandantes do sistema, pois como Marx disse, "o trabalho assalariado é um escravismo mais moderno" . E esta solução imediata é seguida de regras de manipulação em que só opera o benefício em favor daquele que segue perfeitamente a doutrina que o líder religioso DETERMINA como ideal. É um caso que não há subentendido aos olhos desvendados. Uma condição que pretende, não obstante, prometer no âmbito espiritual o que o mundo material o negou, ou sendo mais exato, o que o mundo social o negou.
                A busca por rápidas soluções prósperas são um meio de manter o privilégio de poucos, trazendo os problemas para o âmbito espiritual e retirando por completo a ênfase no sócio/econômico. Estas promessas são sempre de prosperidade, desde que haja a DISCIPLINA e a conservação do velho "esquema" que vem determinando a inferioridade do trabalhador desde o Coronelismo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Obediência e Prosperidade

por Peter Sana
Acompanhando as regiões mais povoadas do Rio de Janeiro, sem muito rigor, percebe-se uma grande diversidade entre as igrejas Protestantes, centros de Umbanda e Candomblé, e até outras religiões menos conhecidas pelo vulgo. Este fenômeno é cada vez mais comum na Baixada Fluminense, e isto desde a primeira metade do século XX. Ouvimos sempre falar que  somos um país majoritariamente católico, que seguimos com veemência a tradição dos nossos colonizadores, que mais extraíram riquezas do que propriamente povoaram esta região em ritmo de colônia, mas na verdade somos uma diversidade imensa de religiões, crenças e hábitos religiosos, que seguimos uma lógica cristã católica acompanhado pela conjuntura mundial. O interesse por preservação do que é de costume nos eleva ao posto de tradicionais, e isso na parte mais significante do tempo, ou seja, passamos grande parte do tempo de nossas vidas seguindo regras que nada nos acrescentam, mas sim nos limitam a viver na escuridão da caverna. E a parte mais degradante de tudo isso é que gostamos de seguir à risca a trilha traçada, sem desviar, ou simplesmente fomos acostumados a gostar , "educados" a gostar. Mas se somos ensinados a permanecer  em inércia, por que não podemos ser ensinados a participar do que antes nos fora privado? Essa é uma das questões mais intrigantes que nos leva a pensar em uma obediência voluntária, que intimida cada pessoa através de  métodos totalmente eficazes  que, por incrível que pareça, se baseiam na negação ao que  a modernidade conquistou, no que se esclarece com  o iluminismo e rompe com o marco da religiosidade do medievo. Nesses anos novecentos, o distanciamento da Igreja católica das periferias deixou um espaço para o preenchimento desta necessidade de suprir os problemas sociais à todo custo. Com o descaso das elites à situação dos pobres, como diria o Bispo D. Adriano Hypólito, os mesmos ficam cada vez mais à margem da população, cabendo a eles recorrerem  com violência a uma solução, ou simplesmente na forma de busca espiritual por uma saída desta situação desumana que o próprio ser humano, seu semelhante,  proporciona à sua raça. Neste ultimo caso, a proposta de prosperidade nas quais as instituições Protestantes e religiões afro se baseiam, é o que mais atrai a classe marginalizada, mesmo que essa proposta custe algumas arestas de suas liberdades, e mesmo que não mude nada em seu momento de vida, a promessa de vida próspera após a morte alivia a falta de condições básicas na vida na terra. O iluminare que deu origem ao Protestantismo não mais habita nas mentes dos praticantes, que trocam suas liberdades por promessas de vida próspera, seguindo uma vida de preservação de prestígios das elites, trazendo um olhar crítico aos pobres, de modo que abstraia um entendimento de que aquele que é pobre, que não segue ao seus "preceitos cristãos",  não tem salvação e é merecedor do sofrimento. Não obstante, o que se espera é sempre uma vida com conquistas materiais, desde que haja submissão à doutrina pré-estabelecida, de acordo com cada denominação (tratando aqui em específico o caso protestante, entendendo que há outros aspectos diversificados para o propósito de prosperidade das religiões afro). Entende-se que se há uma falta de prosperidade é porque não há uma entrega efetiva ao que diz respeito à proposta divina deturpada pelos que pregam prosperidade. O modo que há de fazer a manutenção da autoridade é inteiramente estabelecido por pressão, conforme a rendição do fiel à prática com sua obediência voluntária, sempre aguardando o dia em que Deus cumpriria a promessa de prosperidade. Sem levar em conta que sua liberdade fica retida a seguir uma filosofia de vida que pouco se compara ao que Cristo sonhou como liberdade para o ser humano. Ora, se preso ao conforto material é ser feliz, jamais validaria a proposta de viver bem tão sonhada pelos gregos da antiguidade e propriamente a origem da religião cristã. Os teólogos da libertação, sendo grande parte formada por católicos, e uma pequena parte por protestantes, foi o que houve de contrário ao domínio das elites pela religião. Seguindo as elites, as tendo como responsáveis pela ligação entre os homens e Deus, ao instalarem a obediência voluntária em cada membro de sua denominação evangélica, comprometem-se, estes fiéis, a  respeitar a autoridade do líder. Com todo esse poder fica evidente que se incorpora certo interesse em crescimento, seguindo a lógica mundial do capitalismo, por outro lado, fica muito longe do verdadeiro sentido de ser cristão. Michael Lövy, cita Bloch em sua obra "Marxismo e Teologia da Libertação", o qual diz que a possibilidade dessa anulação de autoridade é formar um possível "ateu religioso", que permitiria uma rendição à causa cristã de origem inquestionável, uma causa pelos pobres, e tiraria toda a autoridade dos que se pré-dispõem a liderar um grupo de pessoas alienando-as de forma a oprimi-las, em busca de um ideal que está longe de ser um ideal cristão de busca pela LIBERDADE e contra a legitimação da autoridade pela proposta de prosperidade.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sobre a Natureza Humana

Peter Sana

Como podemos desvendar o mistério da natureza humana sem termos dados empíricos do Primeiro Homem que pensou? A tarefa não é muito fácil.Podemos discutir sob as mais váriadas perspectivas, mas na verdade só teríamos modelagens de pensamento, e não exatamente a resposta para as origens da natureza humana.
Temos, diante de várias hipóteses, todas elas bem estruturadas, porém, não tão bem recebidas por nós em algumas perspectivas, os sofistas, que dizem que as obras legislativas que organizam o homem em sua sociedade não passam de uma mera convenção, em que visam sempre a auto-preservação. Visto que se um homem comete uma injustiça, logo isso o faz bem, então a injustiça para ele é um bem, mas, além disso, garantir q ele próprio não sofra uma injustiça está acima do bem que é cometê-la. Concluímos que, do ponto de vista sofista, essa natureza humana é má, e o homem passa por sua vida inteira buscando sua auto-preservação.
Por outro lado, mesmo tendo em vista uma concordância com a caracteristica natural do homem sendo má como os sofistas, Platão vai acreditar que pode-se domar essa natureza má: com a razão. Ela (a razão), suprema entre todas, para Platão é a salvação da pólis, é o caminho para o bem da cidade. Mas como podemos elevar todos os habitantes da pólis à razão? Platão aposta na paidéia, a educação, os estímulos ao sentimento patriota, e é esse estímulo à razão que levará os submetidos à essa idéia ao equilíbrio da alma. Contando com um universo separado da imanência, o filósofo pôde contemplar a luz, e é esta luz, que não é acessível à todos, somente aos "escolhidos e separados que têm o dom e a abertura à filosofia", que iluminará o caminho a ser seguido em rumo à cidade perfeita.
Platão aposta num universo das idéias, é autoritário e manipulador ao tentar encaixar todas as pessoas em um formato específico. Priorizando o filósofo ele tenta estabelecer uma cidade comandada pelos mesmos, onde o tal terá os conceitos de bom, belo e justo intrísecos à sua atividade política, e tendo a razão por cima do sensível conseguiria equilibrar a natureza humana má em sua essência.
Aristóteles já é mais realista, mostrando um caminho para a felicidade, porém ainda acreditando no homem como um ser perverso por natureza. Entretanto, para Aristóteles, o homem busca mais do que simplesmente sua auto-preservação, busca sua felicidade. E como se dá essa busca? Pois poderíamos entender felicidade, tratando do senso comum, como várias formas de obras, ou mesmo resultado de obras. Assim como a maioria pensa que ter riqueza é ser feliz, ter prazeres é ser feliz, ou mesmo receber honrarias. Mas não seria muito pouco para ser digno de felicidade? Se um homem por acaso perdesse sua riqueza, ou seus prazeres, ou suas honrarias, perderia sua felicidade? Para Aristóteles a felicidade não pode ser perdida assim tão fácil. É uma excelência. Esse bem maior é o bem ao qual todos os bens estão subordinados, contudo, assim o bem é a finalidade com que nós agimos, ou simplesmente realizamos obras. Claro que existem obras por si que já são um bem, mas de qualquer forma elas visam um outro bem além, uma finalidade. Não obstante, o homem é um ser social, um animal político e a convivência em harmonia com os habitantes da pólis em clima de amizade (philia), e sendo assim, se agirmos em busca da felicidade, todos os atos serão louváveis enquanto obras, porque visarão a felicidade. Na verdade "o bem e a perfeição residem na função". Agir conforme a excelência traz a tona a ação em conformidade com as faculdades da alma e isso o fará feliz.
Portanto a busca da felicidade, aquele bem maior ao qual estão subordinados todos os bens, faz do homem um ser virtuoso, com uma forma de condução boa da vida. A busca constante por estas virtudes, se afastando das provocações que desvirtuam a alma da busca da felicidade torna o homem em um ser bom, por inibição de seus males naturais.
O cristianismo, visto toda a carga de influência dos orfistas, da própria transcendência platônica, com Sto. Agostinho traz uma proposta bem positiva em relação à natureza humana. Contestando o ponto de vista que coloca o ser humano como um ser de natureza perversa, Agostinho vai dizer que tudo é Deus, Ele está em todas as coisas, todos os bens envolvem Deus, Ele criou tudo, tudo dele veio, portanto o homem não pode ser outra coisa senão um ser bom. Segundo o mesmo,o homem somente atingiria o mal ao afastar-se do bem. Pois se Deus está em todas as coisas, e Deus é a excelência maior do bem, algo jamais poderia deixar de ser bom, simplesmente e excepcionalmente não seria desta maneira se o homem se esvaziasse do bem, ou seja, por afastar-se de Deus, pois ao afastar-se da luz encontra-se as trevas, e esta é a ausência de luz e não existe na presença da outra.
John Lennon soube bem dizer o que é “Deus” ao afirmar que “God is a conception”. Concordamos com o mesmo e acrescentamos que esta concepção, assim como a de “melhor dos bens” ou “bem supremo” são, neste caso, uma só coisa. Deus e demônio, bem e mal, razão e emoção, educação e ignorância, todos esses extremos contrários estão intrisecamente ligados no que buscamos entender.
Talvez não consigamos chegar a objetivo algum, pois como afirmei no início deste texto, não temos dados empírico do primeiro homem para estudá-lo e compreender sua natureza. Mas podemos nos esforçar em entender a dinâmica que acontece com os dados do homem que entendemos e que temos acesso.
Vivemos em conflito interno. E este conflito se dá no equilíbrio das naturezas boas e más as quais vivemos tentando ter completo domínio. Por um lado Deus, o bem, a razão e a educação são aspectos positivos, que equacionados e relacionados entre si, nessa questão da natureza compreendemos como uma parte só, que sustenta a parte boa do homem, por outro lado os demônios, o mal, a emoção, a ignorância são o sustento da parte má do homem. Mas para saber o que desequilibra esta harmonia interna precisamos entender o primeiro que desvirtuou-se deste equilíbrio, e não o sabemos, por isso acreditamos que, se por um lado Deus (ou maior de todos os bens, como preferimos) se destaca, justamente por atitude racional, que só foi possível através de uma educação destinada à cognição das verdadeiras virtudes do homem bom, este homem não tem outro caminho senão a prática de boas obras, como um ser social e em busca da felicidade, não só individual, mas coletiva. Suas obras serão belas, seus caminhos virtuosos e iluminados pela luz do conhecimento, razão potencializado pelo bem supremo.
Termos como “verdadeiras virtudes do homem bom” podem não ser tão claros por serem tão abstratos e dignos de interpretações das mais variadas, mas neste caso, pela finalidade que traçamos ao dizer que o equilíbrio se desdobra para o maior de todos os bens em função da felicidade própria junto à sociedade temos um foco bem direto e, se não tão claro, menos propício à abertura interpretativa. Considerando parte da educação como um desvelar das coisas fúteis, das coisas essenciais, das boas obras, da percepção de que onde não há luz há trevas, e onde há trevas há caos e desordem, o homem em si saberá como distinguir o que é bom para o todo, pois sempre pensar no todo o faz um ser social bem harmonizado e equilibrado pelo peso pendendo às bem-aventuranças.